Pular para o conteúdo principal

A (Má)Apropriação da Personalidade de Lucrécia Bórgia em Novelas Latinas – Os casos de Paola Bracho e Jô Penteado

Como citar: LIMA, F. C. A (Má)Apropriação da Personalidade de Lucrécia Bórgia em Novelas Latinas – Os casos de Paola Bracho e Jô Penteado. Rio de Janeiro. Blogger: Telenovelas & Ensino de História. 05 de Dez. de 2020.

Texto experimental, antes do texto final ser publicado no Periódico Educação Básica Revista:

LIMA , F. C. de. NEGLIGÊNCIA QUANTO A PESQUISA HISTÓRICA SOBRE LUCRÉCIA BÓRGIA RESULTANDO EM MÁS REPRODUÇÕES DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO EM PERSONAGENS DE NOVELAS: Os casos de Paola Baracho e Jô Penteado e o que podemos aprender como professores?. Educação Básica Revista, [S. l.], v. 10, n. 1, p. 203–220, 2025. Disponível em: https://www.educacaobasicarevista.com.br/index.php/ebr/article/view/165. Acesso em: 19 maio. 2026.

Imagem 1: Lucrécia Bórgia, Jô Penteado e Paola Bracho.

            1. Introdução:

Lucrécia Bórgia é uma mulher renascentista, que viveu na península Itálica entre 1480 e 1519. Há uma mitologia construída sobre a sua personalidade, envolvendo ela diretamente na morte de seus maridos, pois ela havia sido casada por 3 vezes. Lucrécia Bórgia sofreu problemas na História, sendo algumas vezes demonizada pela sociedade que não aceitava as suas fugas do tradicional, como por exemplo, no trecho abaixo de AZEVEDO, et. Al (2007)[1] em que relata a sua posição contra a perseguição de judeus pela Igreja Católica:

 

Lucrécia Bórgia entrou para história como uma mulher má, envenenadora de seus maridos, mas a história contada pelas correspondências da época mostra uma mulher bem diferente. Além de ser linda e delicada como a Santa Catarina de Pinturicchio dos aposentos dos Bórgia, há relatos de que quando governou Ferrara em ausência de seu marido, ela foi justa proibindo discriminações contra os judeus, aplicando severas penas aos que as descumprissem. Após uma guerra que deixou Ferrara em ruínas, Lucrécia chegou a hipotecar suas jóias para ajudar o marido que já reconhecera há tempos as virtudes da Duquesa de Ferrara. (AZEVEDO et al., pag. 4)

 

No trecho é relatado ainda que ela governou Ferrara nas ausências do marido, tomando decisões progressistas para a época a favor de judeus, perseguidos por católicos.

O pai de Lucrécia era Papa da igreja Católica e a Legislação cristã da época permitiu que ela fosse regente, e o pai dela, o Papa  Alexandre VI, precisou se afastar da Igreja Católica por alguns dias, isso a tornou representante da Igreja em determinados momentos, sendo ela considerada simbolicamemte a única Papisa da História, por governar a religião por esse tempo.

Pesquisas recentes demonstram avanços sobre estudos do comportamento das sociedades renascentistas, demostrando ser comum envolvimentos extraconjugais dentro de uma sociedade com casamentos arranjados, e com mulheres e homens se casando muito jovens, como resultado do interesse particular de alianças financeiras entre famílias.

A personalidade de Lucrécia Bórgia pode ter sido injustiçada por um lado da História, o mitológico apenas a reconhecendo como uma mulher transgressora, que assassinou ex-maridos e casou-se por interesses. Por outro lado, mostra ela como uma mulher adiante do seu tempo, libertadora e com capacidades de liderança. É dentro desses dois lados que caminham Jô Penteado e Paola Bracho nas tramas A Gata Comeu (1985) e A Usurpadora (1998), reprisadas no ano de 2017 no mesmo horário de 15:30 da tarde, pelos canais Viva (Globosat) e SBT, e assim são denominadas pelos novelistas como “Lucrécia Bórgia” nas tramas.

O objetivo desta pesquisa é analisar a apropriação da personalidade de Lucrécia Bórgia nas tramas, e encontrar informações sobre a apropriação realizada pela Rede Globo e Televisa em formatos de mídias comercias. Há indícios de que estereótipos femininos (COSTA, 2000)[2] são divulgados em novelas, e que geralmente a produção dessas novelas tem maior participação masculina e conservadora, oriundas do cristianismo como religião. Há um estereótipo montado sob um ponto de vista religioso na elaboração de personagens mulheres, com personalidades fortes, e políticas em novelas, com a intenção de venda para o consumo de um público específico (HAMBURGUER, 1998)[3].

Lucrécia Bórgia sofreu durante a História problemas com um estereótipo derivado de uma cultura cristã, e isso é refletido nestas novelas que se apropriam de sua História.

A metodologia desta pesquisa é uma análise audiovisual para a uma composição de uma História, e também uma analise de História Comparada, que de acordo com March Bloch (1930) podemos fazer este uso porque há “...diferenças que apresentam duas séries de natureza análoga, tomadas de meios sociais distintos.”, já que observamos apropriações políticas distintas em países diferentes desta personagem de outra época, de origem renascentista, em uma época moderna e depois contemporânea conforme veremos a seguir.

 

2. Possível origem da má-apropriação da Biografia dos Bórgias


Foi no ano de 1833 que o dramaturgo Vitor Hugo[4] publicou uma peça se apropriando pela primeira vez para o teatro em formato larga escala da personalidade de Lucrécia Bórgia. É nesta peça teatral em que vemos o estereótipo da mulher que desafia o conservadorismo católico, por ter sido filha de um papa, descrito pela cultura cristã como “odiado”. Na mesma trama mostra uma Lucrécia que se apaixona pelo seu filho e o mata no decorrer da mesma. A peça sofreu forte censura da igreja na época, passando por diversas edições.

De acordo com VIEIRA (2015)[5], a origem da perpetuação da má reputação da família Bórgia é voltada pela biografia realizada pelo historiador protestante alemão Ferdinand Greroróvios, com o objetivo de romantizar a história da família de Lucrécia Bórgia.

De acordo com a autora VIEIRA (2015)  o gênero romance na época publicado em livros, tinham como objetivo alcançar a quem tinha o domínio literário na Europa na época, que no caso era a Burguesia.

O Romantismo na Europa, como movimento cultural, é oriundo do século XVIII, nato dentro do movimento Iluminista, que inspirou a Burguesia a criticar a igreja e as monarquias, conforme é demonstrado no trecho a seguir:

 

Para Vaillant seria ingenuidade caracterizarmos os distanciamentos entre o
Romantismo(s) apenas pela carga subjetiva e pessoal dos seus escritores. Ele o diferencia também a partir de suas formas especificas, elencando como principal elemento de diferenciação, a experiência de nacionalismo e reivindicações democráticas em cada um dos territórios mencionados. Sendo assim, “o romantismo corresponde ao período que, para cada país europeu ou sob influência europeia, se estendeu da emergência das primeiras aspirações políticas nacionais ao estabelecimento de uma democracia parlamentar”. Todo o romântico carrega em suas linhas influências de sua época e de todas as “atividades culturais, artísticas, intelectuais e literárias que se desenvolveram durante esse período de transição”[6].
(VIEIRA, 2015. P. 58.)

 

Há uma constante propaganda realizada nesta época contra as monarquias e a Igreja na época na Europa, portanto, há de certa forma uma estereotipagem da familia Bórgia, e por consequencia de Lucrécia, devido a aproximação da familia com a Igreja em seu passado, e com a monarquia, que eram as críticas burguesas do momento. E isso é mais expresso no trecho a seguir de VIEIRA, 2015:

 

Conhecida como uma das damas mais polêmicas do Renascimento, Lucrecia, simboliza uma clara deturpação da pureza feminina. Seu pai e – principalmente seu irmão, Cesar Bórgia, manchou a até então mácula alma da pobre moça, com seus desejos demoníacos puramente mundanos de prestigio, conquista e permanência no poder secular. Essa é a opinião de Gregorovius. Em todo o seu texto deixa sinais claros de que a macula na alma de Lucrecia e seus comportamentos imorais só existiram porque a moça nasceu e cresceu num ambiente totalmente deturpado e pecaminoso. (VIEIRA, 2015. P. 64.)

 

No trecho anterior, VIEIRA (2015)[7] mostra como Gregoróvius se apropriou da personalidade dos Bórgia, mais especificamente de Lucrécia para descrever uma crítica a sua personalidade acima de seu tempo, estereotipando uma visão do autor, através de pensamentos religiosos, conforme a seguir:

 

Ferdinand Gregorovius projetou em suas linhas a Alemanha do seu tempo. Foi um cidadão europeu movido pelas questões políticas e sociais. Objetivava contribuir enquanto critico e produtor de conhecimento histórico. Para tanto, encontrou na figura de Lucrecia Bórgia um perfeito gancho, que lhe permitia falar de forma critica e irônica sobre religião, moral, ética e pudor. Qualquer individuo quando escreve, sendo historiador ou não, acaba de uma forma ou outra imprimindo o seu modo de ver o mundo. (VIEIRA, 2015. P. 65.)

 

É partir deste mote da apropriação realizada na História sobre o “ser Lurécia Bórgia” é que analisaremos as mídias no capítulo seguir, e daremos as considerações finais em seguida.

 

3. Apresentação de casos: Jô e Paola.

 

Jô Penteado é constantemente chamada de Lucrécia Bórgia nos textos de “A Gata Comeu”, de 1985, por ter se relacionado, e terminado com sete homens diferentes, e por não sentir apaixonada de verdade por eles. No final, Jô termina a novela casada com Fábio, grávida e s identificando como mãe dos filhos do casamento anterior de Fábio.

Paola Bracho no texto de “A Usurpadora”, se equipara a Lucrécia Bórgia, tentando intimidar Piedade, que é sua sogra-avó, a ameaçando de envenenamento. Paola tem relacionamentos livres com diversos homens na novela, apesar de estar casada com Carlos Daniel.

 

3.1. Sinopse de “A Gata Comeu”[8], e apresentação do caso “Jô Penteado”:

 

A história da novela é sobre Jô Penteado (Christiane Torloni), que é apelidada de Lucrécia Bórgia pelos personagens dentro do folhetim, pois a protagonista havia tido relacionamentos com 7 homens diferentes seguidos, porém, a própria descobre no decorrer da trama que nunca os amou de verdade, e que por isso terminou os relacionamentos. A personagem descobre um novo amor durante uma tentativa de viagem para Angra dos Reis, quando acontece um acidente, e ela é obrigada a conviver em uma ilha deserta com o personagem Professor Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia). O acidente ocorre quando há uma tentativa de sabotagem feita por Edson (José Mayer), que faz a lancha que carrega também a turma de crianças da escola que trabalha Fábio e alguns amigos e a irmã de Jô (Lenita – Personagem de Déborah Evellyn) para a viagem até Angra dos Reis.

Na ilha deserta encontrada pelos náufragos, eles se organizam, e tentam sobreviver da comida levada para a viagem, e dos alimentos caçados e coletados na ilha.

Durante a viagem, Jô tem desentendimentos com Fábio e Paula (namorada de Fábio, personagem da atriz Fátima Freire). O desentendimento com Fábio é devido a uma possível liderança dele sobre o grupo de náufragos, que ela compreende como antidemocrática, e decide separar o grupo dos amigos dela, do grupo de Fábio, tornando o grupo dela, um grupo de ricos, e o grupo de “pé rapados” como é designado pela personagem na novela, ao grupo de Fábio.

Já o desentendimento com Paula, é derivado de uma demissão de Paula da empresa de Horácio Penteado (Pai de Jô na Trama, e personagem do ator Mauro Mendonça), que teria como motivo, um deboche que Jô ouviu sobre a sua fama de “Lucrécia Bórgia”, que observaremos ao longo deste trabalho, realizado por Paula em brincadeira com os personagens funcionários da empresa. O desentendimento entre Paula e Jô se desenvolve na ilha, quando Jô se revela sonâmbula, e durante as suas crises de sonambulismo, se aproxima de Fábio, indo dormir com ele.

Também se desenvolvem na trama tentativas de sabotagem do casamento de Fábio e Paula, realizados pela Jô como vingança não explicada contra a Paula, e também oriunda da descoberta dela através de consultas com analista, e conversas com o padre, e a sua amiga Ivete (Nina de Pádua), que na verdade ela estava desenvolvendo uma paixão pelo Fábio. Paixão de forma compulsiva e abusiva nas linguagens atuais.

Em um momento em que Jô perde a memória depois de um desmaio na novela, Jô, casada com Fábio (mas não se lembra) reúne seus 7 ex-namorados em uma festa, com a presença de Fábio, que se sente constrangido e força um beijo dela na frente dos convidados. Após uma nova excursão para Angra dos Reis com todos os envolvidos na primeira, Jô recupera a memória e a sua vida com o Fábio e os filhos do Professor que têm nela como uma mãe, mesmo apesar das implicâncias de Gláucia e Esther, sua irmã de criação e a sua madrasta.

Em um diálogo da novela, no primeiro capítulo, a personagem Paula, até então secretária das empresas do pai de Jô, Horácio Penteado, é flagrada por Jô fazendo a seguinte fala, com outra secretária amiga dela:

 

Paula:

- Agora cá pra nós hein, esse Doutor Horácio é muito metido a besta

Secretária:

- Que isso Paula

Paula:

- Besta sim, igualzinho as filhas dele, agora aquela tal de Joana então, Deus me livre.

Secretária:

- Joana não, Jô.

Paula:

- É Joana deve ser nome de pobre, já reparou até o apelido dela é bestinha, Jô. Ela chega aqui esnoba todo mundo. Você sabe como ela é chamada por aí?

Secretária:

- Não.

Paula:

- Lucrécia Bórgia

Secretária:

- Ué, Porque?

Paula:

- Porque ela vive fazendo uma coleção de noivos. Noivo pra ela é material descartável.

 


Imagem 2. Cena em que Paula a direita, comenta com outra secretária, a esquerda, sobre o apelido de Lucrécia Bórgia de Jô Penteado ao centro. É neste momento que Jô ouve tudo, e pede a demissão de Paula. Paula é noiva de Fábio, professor por quem Jô se apaixona após o acidente durante a excursão para angra dos Reis. A Gata Comeu, Cap. 1. VivaPlay. 2017.

 

3.2. Sinopse de “A Usurpadora”, e apresentação do caso “Paola Bracho”.

 

A história da novela se passa sobre a história de Paola e Paulina (Gabriela Spanic), que se descobrem irmãs gêmeas próximo ao final da trama. Paola é uma mulher de classe alta, casada com Carlos Daniel Bracho (Fernando Colunga) um empresário do ramo de cerâmica, que herda a empresa de sua família. A empresa se encontra em crise financeira, a ponto de funcionários decretarem greve no decorrer da trama. Com Paola, ele possui uma filha adotiva caçula, uma criança, porém ele possui um filho mais velho, uma criança também, Carlinhos, que é oriundo de seu casamento anterior, no qual foi viúvo.

Na mansão em que mora Carlos Daniel e Paola, moram, além das crianças: Piedade (Libertad Lamarque) avó de Carlos Daniel, que é alcoólatra e tem crises de Sindrome de Abstinência Alcóolica; a irmã de criação de Carlos Daniel, Estéphanie (Chantal Andere), com o marido Willy (Juan Pablo Gamboa); um casal em crise, pois Esthéphanie é cristã conservadora e só anda de preto e cabelos amarrados, e que vive em torno das traições do marido, que supostamente a traiu com Paola.

Moram na mansão também os empregados Adelina (Magda Guzmán) amiga e fiel escudeira de Piedade, e mãe verdadeira de Esthéphanie (descoberto no final da trama), Lalinha (Paty Díaz) escudeira fiel de Paola, Chico (Tito Guizar), Filomena (Maria Luiza Acalá) e Pedro (Emiliano Lizágarra).

A mansão também é frequentada por Leda (Dominika Paleta), que é apaixonada por Carlos Daniel, e Paola a vê como uma rival, e o casal Rodrigo (Armando Buquet) que é irmão de Carlos Daniel e Patrícia (Jéssica Jurado) cunhada de Carlos Daniel.

Na trama, em uma viagem, Paola, bêbada, encontra Paulina trabalhando no toalete, se impressiona com a semelhança de sua suposta sósia com ela, e em seguida a acusa de roubo, obrigando-a a aceitar uma proposta em que Paulina a substituísse em sua volta a mansão Bracho, por um ano, enquanto Paola viaja.

Paola tem vários amantes no decorrer da trama, e inclusive um ex-marido anterior à Carlos Daniel, no qual ela o abandonou, que no caso é Douglas Maldonado (Miguel de León) por ter se casado com ele com identidade falsa, de nome Noêmia. Paola ainda tenta voltar com Douglas Maldonado usando a identidade de Paola Bracho, isso tudo após Paulina ter se aproximado do milionário, utilizando a identidade de Paola Bracho, ao pedir um empréstimo em dinheiro para salvar a Cerâmica Bracho da falência.

Paulina, no decorrer da trama, é presa pelo crime de usurpação após uma investigação da polícia sobre um possível sequestro de Carlinhos, que ficou desaparecido na trama, durante a volta de Paola, e saída de Paulina da mansão, realizada por elas de forma discreta, mas elas não contavam que a família teria descoberto a troca. Paola foge da mansão para viver com Douglas Maldonado.

Paulina é presa, Paola retorna para a mansão fingindo estar em cadeira de rodas, após ser abandonada em um hospital por Douglas após uma crise neurológica, e descobrem-se irmãs. Paola processa Paulina na justiça e perde. Paola é desmascarava pela enfermeira, e morre em um acidente de automóvel tentando matar a enfermeira. Paulina se casa com Carlos Daniel.

Paola, na novela A Usurpadora, de 1998, tem um histórico na trama com diversos amantes, e em um diálogo com Piedade é citado:

 

Paola:

-            Quer dizer que você tem alma de cozinheira Piedade?

Piedade:

-            E você tem de quê?

Paola:

-            De Lucrécia Bórgia, pois tenha cuidado porque mesmo inválida como eu estou, saberia dar um jeito de envenenar você.[9]

 


Imagem 3. Paola ri junto com Leda após o diálogo ofensivo contra Piedade, se equiparando a Lucrécia Bórgia. Piedade se retira do Jardim, enquanto a vilã gargalha. Fonte: Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=9tpkbiX911M. A versão em espanhol original do áudio é traduzida nesta cena fielmente em português, conforme o original: Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM.


4. Considerações finais:

 

Foi realizada uma análise e uma apropriação de mídias audiovisuais produzidas originalmente pela rede de televisão mexicana Televisa, e pela brasileira Rede Globo.

São mídias distintas, originalmente produzidas em épocas diferentes, uma pela Televisa em 1998, e outra em 1985 pela Rede Globo. Ambas foram reprisadas no ano de 2017 pelas emissoras SBT, que tem parceria com a Televisa para a exibição das tramas mexicanas, e outra pelo Canal Viva, que pertence ao sistema Globosat de televisão a cabo, pertencente as mídias Globo.

Em ambas as tramas observamos a má-apropriação da personalidade de Lucrécia Bórgia, e no decorrer da pesquisa, foi realizada uma busca pela origem desse tipo de apropriação.

Nas pesquisas bibliográficas, compreendemos a partir de VIEIRA (2015)[10], que há um estereótipo na História formado a partir do Iluminismo e da era do Romantismo na Europa, sobre a Família Bórgia, e também sobre Lucrécia Bórgia.

AZEVEDO, et. Al (2007)[11] nos faz pensar que o estereótipo da Lucrecia Borgia, mulher má e envenenadora de maridos, também surge como uma crítica patriarcal a mulher que está à frente do seu tempo, que na prática não realiza obrigações com a religião ou com os mandamentos bíblicos.

Paola Bracho e Jô Penteado são mulheres que desafiam regras religiosas, e são construídas em países aonde a predominância religiosa na política e na sociedade é grande.

O que faz as personagens serem taxadas em certos momentos como transgressoras a sociedade nas novelas, é quando Jô Penteado e Paola Bracho são desconstruídas dos laços religiosos do casamento, em certos pontos nas novelas, e as paixões rápidas as movimentam nas tramas.

Assim, voltando ao argumento já relatado aqui anteriormente, há um estereótipo montado sob um ponto de vista religioso na elaboração de personagens mulheres nestas novelas, com personalidades fortes, e políticas, com a intenção de venda para o consumo de um público específico (HAMBURGUER, 1998)[12], e esse público, não só o público, consumidor, mas também resultado de como a produção e os autores específicos dessas novelas, expressam a crítica sobre essas mulheres, quando as vilanizam, através da comparação com outro estereótipo de Lucrécia Bórgia. Seria um estereótipo do estereótipo.

As novelas de 1985 e 1998 no entanto, são reproduções de um estereótipo montado no século XVIII sobre a Lucrécia Bórgia. E ambas reprisaram em mesmo horário por empresas concorrentes, que visam a venda de estereótipos femininos em novelas ao olhar de (COSTA, 2000)[13].

Devemos ter cuidados com os estereótipos construídos. Este texto é uma critica as apropriações realizadas por textos que carregam marcas de uma época em que o mundo era diferente do vivenciado nas novelas. O mundo nos anos 1980 e 1990, são diferentes do estereotipado por Victor Hugo e também por Fredinand Gregoróvius, a partir de uma visão machista sobre a personalidade de Lucrécia Bórgia. Há também apropriações feitas por politicos e teóricos que criticam o regime monarquico entre o Renascimento e o Iluminismo. Temos que ficar atentos aos estereótipos de personalidades construídos também em sala de aula, como por exemplo, no ensino de História. A importância da pesquisa Histórica é essencial para construir dados para discutir personalidades em sala de aula, para que não se reproduza dados de memória falseada, e sejam os dados de qual tempo for, precisamos entender também os problemas de época.

Tanto A Usurpadora (1998) e A Gata Comeu (1986) são adaptações, ou remakes de novelas anteriores. A Usurpadora tem inúmeras versões, inclusive uma realizada pela Televisa em 2019. A primeira versão de A Usurpadora é uma radionovela nos anos 1960, editada por Inés Ródena, novelista latina. A Gata Comeu, é baseada em A Barba Azul (1975) e ambas são de autoria de Ivani Ribeiro. Não temos dados se a fala de Paola Bracho (1998) foi repetida anteriormente em outras tramas anteriores como O Lar que Eu Roubei (1981), mas na versão de 2019, não há esta fala. Já no Caso de A Gata Comeu, na versão anterior A Barba Azul (1975) Jô Penteado é chamada de forma jocosa de "Barba Azul", um estereótipo de um personagem de Carles Perrault do Século XVII que tinha fama de desaparecer com suas esposas. Observando hoje como as mulheres são tratadas ou silenciadas por consequencias do machismo, devemos rever como a historia dessas mulheres são retratadas, para não sermos injustos com a luta politica delas.

 

 

Bibliografia:

 

AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al.  Lucrécia Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 –  Último acesso em: 03 de maio de 2017.

BUSTAMANTE, R. M. da C.; THEML, N. . História Comparada: olhares plurais. Revista de História Comparada (UFRJ), v. 1, p. 1-23, 2007.

COSTA, Cristiane. “Desgraça pouca é bobagem”, “Nada personal” e “El amor tiene cara de Mujer”. In: Eu compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas. (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)

GRILLANDI, Massimo. Lucrécia Bórgia. – São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

HAMBURGER, Esther. “Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS, Fernando & SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil 4 – Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. p.439-487.)

BLOCH, M. Comparaison. REVUE DE SYNTHÈSE HISTORIQUE LXIX (boletim anexo): 31-39, 1930.

HUGO, Victor. Lucrezia Borgia. A cura di Mario Roffi. Ferrara: Liberty house, 1994.

TAPIOCA NETO, Renato. A filha do Papa: a interessante história de Lucrécia Borgia. Rainhas Trágicas. 15 de maio de 2013. Blogue: https://rainhastragicas.com/2013/05/15/lucrecia-borgia/

VAILLANT, Alain; V. A. Mundialização, entre nacionalismo e mundialização. Olho dgua, São José do Rio Preto, 5(2): 1: 263, p. 79-90, jul./dez. 2003.

VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v. 2, p. http://ppghis.c, 2015.

VIVAPLAY.https://globosatplay.globo.com/viva/?gclid=CjwKEAjwjunJBRDzl6iCpoKS4G0SJACJAx-VoUiEwrkAXMtQKdA-MkkmXBrzwBofdJFxTg0OajKM5xoCwafw_wcB. 2017.

Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM. 2017.



[1] AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al.  Lucrécia Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 –  Último acesso em: 03 de maio de 2017.

[2] COSTA, Cristiane. “Desgraça pouca é bobagem”, “Nada personal” e “El amor tiene cara de
Mujer”.
In: Eu compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas.
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)

[3] HAMBURGER, Esther. “Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS,
Fernando & SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil 4 – Contrastes da
intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. p.439-487.)

[4] HUGO, Victor. Lucrezia Borgia. A cura di Mario Roffi. Ferrara: Liberty house, 1994.

[5] VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v. 2, p. http://ppghis.c, 2015.

[6] Apud. VAILLANT, Alain; V. A. Mundialização, entre nacionalismo e mundialização. Olho dgua, São José do Rio Preto, 5(2): 1: 263, p. 79-90, jul./dez. 2003.

[7] VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v. 2, p. http://ppghis.c, 2015.

[8] A Gata Comeu. Teledramaturgia. < teledramaturgia.com.br>. Foi feito um resumo das informações do site, organizado pelo jornalista Nilson Xavier, colunista do Canal Viva.

[9] Youtube. Apud. La Usurpadora. Televisa. 1998. < https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM > Último acesso em: 03 de maio de 2017.

[10] VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v. 2, p. http://ppghis.c, 2015.

[11] AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al.  Lucrécia Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 –  Último acesso em: 03 de maio de 2017.

[12] HAMBURGER, Esther. “Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS,
Fernando & SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil 4 – Contrastes da
intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. p.439-487.)

[13] COSTA, Cristiane. “Desgraça pouca é bobagem”, “Nada personal” e “El amor tiene cara de
Mujer”.
In: Eu compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas.
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pantanal - Possibilidades na História e Educação Ambiental

Minhas notas sobre a Estreia de Pantanal: 1. Chegou aos 30 pontos de audiência em SP e 32 no RJ: Isso mostra a curiosidade do público com a nova versão; 2. "Toca Maria Bethania pra ela e mostra que tu é intenso" - a Rainha na abertura tá linda, mas a dona Globo precisa acertar os recortes do trecho da musica. Não precisa ser grande como era na Manchete, mas tá picotado. Achei a abertura bem natural diferente da cafonagem de computação gráfica machista insistindo em colocar mulheres nuas tanto na versão da Manchete quanto na versão do SBT. 3. Nas primeiras cenas já percebemos um Pantanal diferente, graças a politica de "deixar passar o gado" de Michel Temer-Bolsonaro. É uma pena ver espaços "secos". É possível extrair de forma comparada cenas de 1990 com agora e perceber as diferenças. 4. A passagem de berrante entre Paulo Gorgulho e Irandhir Santos foi bonita! O Joventino de 1990 reverenciando o de 2022. São dois baita atores! 5. As sequencias de Maria e J...

Maria do Bairro, Marina e Os Ricos Também Choram: Ensino de História e Literatura

Parte I.  Resenha dos dois primeiros capitulos da nova versão Los Ricos También Lloran, TelevisaUnivision, Las Estrellas, 2022 (Cap.1 e 2): 21 e 22/02/2022, Novela das 9 da emissora. 1. Comparando com outras versões, Mariana é uma personagem mais próxima de Marina (Telemundo, 2006) do que da Maria do Bairro (Televisa, 1996) e Mariana - LRTL (1979). Ela tem o Ensino Médio completo, e sonha estudar numa Universidade. Ela não é uma menina em estado de miséria, como foi Maria do Bairro (1996), a caipira Mariana (LRTL, 1979), e bem diferente da Mariana quase sem terra, dos anos 1930, de época, do SBT (2006). Claudia Martín ta fazendo bem a personagem, que já foi defendida por Veronica Castro (1979), Thalia (1996), Sandra Esheverría (2006) e Thais Fersoza (2006). Acho que ela aprendeu a ficar "nesse quadrado" de mocinha de novela. 2. Esther, vilã original, ganhou o mesmo nome da versão de 1996, Soraya Montenegro. Até o capitulo em questão, ela é uma "sobrinha" do patriarc...

Barbara Mori não é a única Rubí: Cada interpretação tem o seu tempo Histórico.

Calma pessoal, é claro que a Barbara Mori é uma excelente atriz! Mas precisamos esclarecer algumas coisas para não sair reproduzindo falas vazias de conhecimento na internet. Como por exemplo, eu leio muito em grupos sobre telenovelas a frase "Barbara Mori é única Rubi"; "Melhor Rubi é a original da Barbara Mori". Eu como educador, professor e Historiador eu fico preocupado com o problema que as pessoas tem de reproduzir frases ou palavras sem fazer "uma pesquisa antes". Eu mesmo de vez em quando me pego em contradições por palavras ou frases que eu defendo, e de imediato vou até o Google, e pergunto, "esse acontecimento é verdadeiro?" - Mas muita gente não sabe utilizar essa ferramenta que facilitou a pesquisa no mundo desde os anos 1990. Trechos em vermelho contém spoilers mais pesados! Por: Fabiano Cabral de Lima Professor de História 2. Tecnologia, História e a Dramaturgia nos anos 2000: Antes dos anos 1990 ter informações sobre novelas, film...