A (Má)Apropriação da Personalidade de Lucrécia Bórgia em Novelas Latinas – Os casos de Paola Bracho e Jô Penteado
Como citar: LIMA, F. C. A (Má)Apropriação da Personalidade de Lucrécia Bórgia em Novelas Latinas – Os casos de Paola Bracho e Jô Penteado. Rio de Janeiro. Blogger: Telenovelas & Ensino de História. 05 de Dez. de 2020.
Texto experimental, antes do texto final ser publicado no Periódico Educação Básica Revista:
LIMA , F. C. de. NEGLIGÊNCIA QUANTO A PESQUISA HISTÓRICA SOBRE LUCRÉCIA BÓRGIA RESULTANDO EM MÁS REPRODUÇÕES DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO EM PERSONAGENS DE NOVELAS: Os casos de Paola Baracho e Jô Penteado e o que podemos aprender como professores?. Educação Básica Revista, [S. l.], v. 10, n. 1, p. 203–220, 2025. Disponível em: https://www.educacaobasicarevista.com.br/index.php/ebr/article/view/165. Acesso em: 19 maio. 2026.
1. Introdução:
Lucrécia Bórgia é uma mulher
renascentista, que viveu na península Itálica entre 1480 e 1519. Há uma
mitologia construída sobre a sua personalidade, envolvendo ela diretamente na
morte de seus maridos, pois ela havia sido casada por 3 vezes. Lucrécia Bórgia
sofreu problemas na História, sendo algumas vezes demonizada pela sociedade que
não aceitava as suas fugas do tradicional, como por exemplo, no trecho abaixo
de AZEVEDO, et. Al (2007)[1]
em que relata a sua posição contra a perseguição de judeus pela Igreja
Católica:
Lucrécia Bórgia entrou para história como uma
mulher má, envenenadora de seus maridos, mas a história contada pelas
correspondências da época mostra uma mulher bem diferente. Além de ser linda e
delicada como a Santa Catarina de Pinturicchio dos aposentos dos Bórgia, há
relatos de que quando governou Ferrara em ausência de seu marido, ela foi justa
proibindo discriminações contra os judeus, aplicando severas penas aos que as
descumprissem. Após uma guerra que deixou Ferrara em ruínas, Lucrécia chegou a
hipotecar suas jóias para ajudar o marido que já reconhecera há tempos as
virtudes da Duquesa de Ferrara. (AZEVEDO et al., pag. 4)
No trecho é relatado ainda que ela governou Ferrara nas ausências do marido, tomando decisões progressistas para a época a favor de judeus, perseguidos por católicos.
O pai de Lucrécia era Papa da igreja Católica e a Legislação cristã da época permitiu que ela fosse regente, e o pai dela, o Papa Alexandre VI, precisou se afastar da Igreja Católica por alguns dias, isso a tornou representante da Igreja em determinados momentos, sendo ela considerada simbolicamemte a única Papisa da História, por governar a
religião por esse tempo.
Pesquisas recentes
demonstram avanços sobre estudos do comportamento das sociedades
renascentistas, demostrando ser comum envolvimentos extraconjugais dentro de
uma sociedade com casamentos arranjados, e com mulheres e homens se casando
muito jovens, como resultado do interesse particular de alianças financeiras
entre famílias.
A personalidade de Lucrécia
Bórgia pode ter sido injustiçada por um lado da História, o mitológico apenas a
reconhecendo como uma mulher transgressora, que assassinou ex-maridos e
casou-se por interesses. Por outro lado, mostra ela como uma mulher adiante do
seu tempo, libertadora e com capacidades de liderança. É dentro desses dois
lados que caminham Jô Penteado e Paola Bracho nas tramas A Gata Comeu (1985) e
A Usurpadora (1998), reprisadas no ano de 2017 no mesmo horário de 15:30 da
tarde, pelos canais Viva (Globosat) e SBT, e assim são denominadas pelos
novelistas como “Lucrécia Bórgia” nas tramas.
O objetivo desta pesquisa é
analisar a apropriação da personalidade de Lucrécia Bórgia nas tramas, e
encontrar informações sobre a apropriação realizada pela Rede Globo e Televisa em
formatos de mídias comercias. Há indícios de que estereótipos femininos (COSTA,
2000)[2]
são divulgados em novelas, e que geralmente a produção dessas novelas tem maior
participação masculina e conservadora, oriundas do cristianismo como religião.
Há um estereótipo montado sob um ponto de vista religioso na elaboração de
personagens mulheres, com personalidades fortes, e políticas em novelas, com a
intenção de venda para o consumo de um público específico (HAMBURGUER, 1998)[3].
Lucrécia Bórgia sofreu
durante a História problemas com um estereótipo derivado de uma cultura cristã,
e isso é refletido nestas novelas que se apropriam de sua História.
A metodologia desta pesquisa
é uma análise audiovisual para a uma composição de uma História, e também uma
analise de História Comparada, que de acordo com March Bloch (1930) podemos fazer este uso
porque há “...diferenças que apresentam
duas séries de natureza análoga, tomadas de meios sociais distintos.”, já
que observamos apropriações políticas distintas em países diferentes desta
personagem de outra época, de origem renascentista, em uma época moderna e
depois contemporânea conforme veremos a seguir.
2. Possível origem da má-apropriação da Biografia dos Bórgias
Foi no ano de 1833 que o
dramaturgo Vitor Hugo[4]
publicou uma peça se apropriando pela primeira vez para o teatro em formato
larga escala da personalidade de Lucrécia Bórgia. É nesta peça teatral em que
vemos o estereótipo da mulher que desafia o conservadorismo católico, por ter
sido filha de um papa, descrito pela cultura cristã como “odiado”. Na mesma
trama mostra uma Lucrécia que se apaixona pelo seu filho e o mata no decorrer
da mesma. A peça sofreu forte censura da igreja na época, passando por diversas
edições.
De acordo com VIEIRA (2015)[5], a origem da perpetuação da má reputação da família
Bórgia é voltada pela biografia realizada pelo historiador protestante alemão
Ferdinand Greroróvios, com o objetivo de romantizar a história da família de
Lucrécia Bórgia.
De acordo com a autora VIEIRA (2015) o gênero romance na época publicado em
livros, tinham como objetivo alcançar a quem tinha o domínio literário na
Europa na época, que no caso era a Burguesia.
O Romantismo na Europa, como movimento cultural, é
oriundo do século XVIII, nato dentro do movimento Iluminista, que inspirou a
Burguesia a criticar a igreja e as monarquias, conforme é demonstrado no trecho
a seguir:
Para Vaillant seria ingenuidade
caracterizarmos os distanciamentos entre o
Romantismo(s) apenas pela carga subjetiva e pessoal dos seus escritores. Ele o
diferencia também a partir de suas formas especificas, elencando como principal
elemento de diferenciação, a experiência de nacionalismo e reivindicações
democráticas em cada um dos territórios mencionados. Sendo assim, “o romantismo
corresponde ao período que, para cada país europeu ou sob influência europeia,
se estendeu da emergência das primeiras aspirações políticas nacionais ao
estabelecimento de uma democracia parlamentar”. Todo o romântico carrega em
suas linhas influências de sua época e de todas as “atividades culturais,
artísticas, intelectuais e literárias que se desenvolveram durante esse período
de transição”[6]. (VIEIRA, 2015. P. 58.)
Há uma constante propaganda
realizada nesta época contra as monarquias e a Igreja na época na Europa,
portanto, há de certa forma uma estereotipagem da familia Bórgia, e por
consequencia de Lucrécia, devido a aproximação da familia com a Igreja em seu
passado, e com a monarquia, que eram as críticas burguesas do momento. E isso é
mais expresso no trecho a seguir de VIEIRA, 2015:
Conhecida como uma das damas mais polêmicas do
Renascimento, Lucrecia, simboliza uma clara deturpação da pureza feminina. Seu
pai e – principalmente seu irmão, Cesar Bórgia, manchou a até então mácula alma
da pobre moça, com seus desejos demoníacos puramente mundanos de prestigio,
conquista e permanência no poder secular. Essa é a opinião de Gregorovius. Em
todo o seu texto deixa sinais claros de que a macula na alma de Lucrecia e seus
comportamentos imorais só existiram porque a moça nasceu e cresceu num ambiente
totalmente deturpado e pecaminoso. (VIEIRA, 2015. P. 64.)
No trecho anterior, VIEIRA (2015)[7] mostra como Gregoróvius se apropriou da personalidade
dos Bórgia, mais especificamente de Lucrécia para descrever uma crítica a sua
personalidade acima de seu tempo, estereotipando uma visão do autor, através de
pensamentos religiosos, conforme a seguir:
Ferdinand Gregorovius projetou em suas linhas
a Alemanha do seu tempo. Foi um cidadão europeu movido pelas questões políticas
e sociais. Objetivava contribuir enquanto critico e produtor de conhecimento
histórico. Para tanto, encontrou na figura de Lucrecia Bórgia um perfeito
gancho, que lhe permitia falar de forma critica e irônica sobre religião,
moral, ética e pudor. Qualquer individuo quando escreve, sendo historiador ou
não, acaba de uma forma ou outra imprimindo o seu modo de ver o mundo. (VIEIRA, 2015. P. 65.)
É partir deste mote da
apropriação realizada na História sobre o “ser Lurécia Bórgia” é que
analisaremos as mídias no capítulo seguir, e daremos as considerações finais em
seguida.
3. Apresentação de casos: Jô e Paola.
Jô Penteado é constantemente
chamada de Lucrécia Bórgia nos textos de “A Gata Comeu”, de 1985, por ter se
relacionado, e terminado com sete homens diferentes, e por não sentir apaixonada
de verdade por eles. No final, Jô termina a novela casada com Fábio, grávida e
s identificando como mãe dos filhos do casamento anterior de Fábio.
Paola Bracho no texto de “A
Usurpadora”, se equipara a Lucrécia Bórgia, tentando intimidar Piedade, que é
sua sogra-avó, a ameaçando de envenenamento. Paola tem relacionamentos livres
com diversos homens na novela, apesar de estar casada com Carlos Daniel.
3.1. Sinopse de “A Gata Comeu”[8],
e apresentação do caso “Jô Penteado”:
A história da novela é sobre
Jô Penteado (Christiane Torloni), que é apelidada de Lucrécia Bórgia pelos
personagens dentro do folhetim, pois a protagonista havia tido relacionamentos
com 7 homens diferentes seguidos, porém, a própria descobre no decorrer da
trama que nunca os amou de verdade, e que por isso terminou os relacionamentos.
A personagem descobre um novo amor durante uma tentativa de viagem para Angra
dos Reis, quando acontece um acidente, e ela é obrigada a conviver em uma ilha
deserta com o personagem Professor Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia). O acidente
ocorre quando há uma tentativa de sabotagem feita por Edson (José Mayer), que
faz a lancha que carrega também a turma de crianças da escola que trabalha
Fábio e alguns amigos e a irmã de Jô (Lenita – Personagem de Déborah Evellyn)
para a viagem até Angra dos Reis.
Na ilha deserta encontrada
pelos náufragos, eles se organizam, e tentam sobreviver da comida levada para a
viagem, e dos alimentos caçados e coletados na ilha.
Durante a viagem, Jô tem
desentendimentos com Fábio e Paula (namorada de Fábio, personagem da atriz
Fátima Freire). O desentendimento com Fábio é devido a uma possível liderança
dele sobre o grupo de náufragos, que ela compreende como antidemocrática, e
decide separar o grupo dos amigos dela, do grupo de Fábio, tornando o grupo
dela, um grupo de ricos, e o grupo de “pé rapados” como é designado pela
personagem na novela, ao grupo de Fábio.
Já o desentendimento com
Paula, é derivado de uma demissão de Paula da empresa de Horácio Penteado (Pai
de Jô na Trama, e personagem do ator Mauro Mendonça), que teria como motivo, um
deboche que Jô ouviu sobre a sua fama de “Lucrécia Bórgia”, que observaremos ao
longo deste trabalho, realizado por Paula em brincadeira com os personagens
funcionários da empresa. O desentendimento entre Paula e Jô se desenvolve na
ilha, quando Jô se revela sonâmbula, e durante as suas crises de sonambulismo,
se aproxima de Fábio, indo dormir com ele.
Também se desenvolvem na
trama tentativas de sabotagem do casamento de Fábio e Paula, realizados pela Jô
como vingança não explicada contra a Paula, e também oriunda da descoberta dela
através de consultas com analista, e conversas com o padre, e a sua amiga Ivete
(Nina de Pádua), que na verdade ela estava desenvolvendo uma paixão pelo Fábio.
Paixão de forma compulsiva e abusiva nas linguagens atuais.
Em um momento em que Jô
perde a memória depois de um desmaio na novela, Jô, casada com Fábio (mas não
se lembra) reúne seus 7 ex-namorados em uma festa, com a presença de Fábio, que
se sente constrangido e força um beijo dela na frente dos convidados. Após uma
nova excursão para Angra dos Reis com todos os envolvidos na primeira, Jô
recupera a memória e a sua vida com o Fábio e os filhos do Professor que têm
nela como uma mãe, mesmo apesar das implicâncias de Gláucia e Esther, sua irmã
de criação e a sua madrasta.
Em um diálogo da novela, no
primeiro capítulo, a personagem Paula, até então secretária das empresas do pai
de Jô, Horácio Penteado, é flagrada por Jô fazendo a seguinte fala, com outra
secretária amiga dela:
Paula:
- Agora cá pra nós hein, esse Doutor Horácio é
muito metido a besta
Secretária:
- Que isso Paula
Paula:
- Besta sim, igualzinho as filhas dele, agora
aquela tal de Joana então, Deus me livre.
Secretária:
- Joana não, Jô.
Paula:
- É Joana deve ser nome de pobre, já reparou
até o apelido dela é bestinha, Jô. Ela chega aqui esnoba todo mundo. Você sabe
como ela é chamada por aí?
Secretária:
- Não.
Paula:
- Lucrécia Bórgia
Secretária:
- Ué, Porque?
Paula:
- Porque ela vive fazendo uma coleção de
noivos. Noivo pra ela é material descartável.
Imagem 2. Cena em que Paula a direita, comenta com outra secretária, a esquerda, sobre o apelido de Lucrécia Bórgia de Jô Penteado ao centro. É neste momento que Jô ouve tudo, e pede a demissão de Paula. Paula é noiva de Fábio, professor por quem Jô se apaixona após o acidente durante a excursão para angra dos Reis. A Gata Comeu, Cap. 1. VivaPlay. 2017.
3.2. Sinopse de “A Usurpadora”,
e apresentação do caso “Paola Bracho”.
A história da novela se
passa sobre a história de Paola e Paulina (Gabriela Spanic), que se descobrem
irmãs gêmeas próximo ao final da trama. Paola é uma mulher de classe alta,
casada com Carlos Daniel Bracho (Fernando Colunga) um empresário do ramo de cerâmica,
que herda a empresa de sua família. A empresa se encontra em crise financeira,
a ponto de funcionários decretarem greve no decorrer da trama. Com Paola, ele
possui uma filha adotiva caçula, uma criança, porém ele possui um filho mais
velho, uma criança também, Carlinhos, que é oriundo de seu casamento anterior,
no qual foi viúvo.
Na mansão em que mora Carlos
Daniel e Paola, moram, além das crianças: Piedade (Libertad Lamarque) avó de
Carlos Daniel, que é alcoólatra e tem crises de Sindrome de Abstinência
Alcóolica; a irmã de criação de Carlos Daniel, Estéphanie (Chantal Andere), com
o marido Willy (Juan Pablo Gamboa); um casal em crise, pois Esthéphanie é
cristã conservadora e só anda de preto e cabelos amarrados, e que vive em torno
das traições do marido, que supostamente a traiu com Paola.
Moram na mansão também os
empregados Adelina (Magda Guzmán) amiga e fiel escudeira de Piedade, e mãe
verdadeira de Esthéphanie (descoberto no final da trama), Lalinha (Paty Díaz)
escudeira fiel de Paola, Chico (Tito Guizar), Filomena (Maria Luiza Acalá) e
Pedro (Emiliano Lizágarra).
A mansão também é
frequentada por Leda (Dominika Paleta), que é apaixonada por Carlos Daniel, e
Paola a vê como uma rival, e o casal Rodrigo (Armando Buquet) que é irmão de
Carlos Daniel e Patrícia (Jéssica Jurado) cunhada de Carlos Daniel.
Na trama, em uma viagem,
Paola, bêbada, encontra Paulina trabalhando no toalete, se impressiona com a
semelhança de sua suposta sósia com ela, e em seguida a acusa de roubo,
obrigando-a a aceitar uma proposta em que Paulina a substituísse em sua volta a
mansão Bracho, por um ano, enquanto Paola viaja.
Paola tem vários amantes no
decorrer da trama, e inclusive um ex-marido anterior à Carlos Daniel, no qual
ela o abandonou, que no caso é Douglas Maldonado (Miguel de León) por ter se
casado com ele com identidade falsa, de nome Noêmia. Paola ainda tenta voltar
com Douglas Maldonado usando a identidade de Paola Bracho, isso tudo após
Paulina ter se aproximado do milionário, utilizando a identidade de Paola Bracho,
ao pedir um empréstimo em dinheiro para salvar a Cerâmica Bracho da falência.
Paulina, no decorrer da
trama, é presa pelo crime de usurpação após uma investigação da polícia sobre
um possível sequestro de Carlinhos, que ficou desaparecido na trama, durante a
volta de Paola, e saída de Paulina da mansão, realizada por elas de forma
discreta, mas elas não contavam que a família teria descoberto a troca. Paola
foge da mansão para viver com Douglas Maldonado.
Paulina é presa, Paola
retorna para a mansão fingindo estar em cadeira de rodas, após ser abandonada
em um hospital por Douglas após uma crise neurológica, e descobrem-se irmãs.
Paola processa Paulina na justiça e perde. Paola é desmascarava pela
enfermeira, e morre em um acidente de automóvel tentando matar a enfermeira.
Paulina se casa com Carlos Daniel.
Paola, na novela A
Usurpadora, de 1998, tem um histórico na trama com diversos amantes, e em um
diálogo com Piedade é citado:
Paola:
-
Quer dizer que você tem alma de cozinheira Piedade?
Piedade:
-
E você tem de quê?
Paola:
-
De Lucrécia Bórgia, pois tenha cuidado porque mesmo
inválida como eu estou, saberia dar um jeito de envenenar você.[9]
Imagem 3. Paola ri junto com Leda após o diálogo ofensivo contra Piedade, se equiparando a Lucrécia Bórgia. Piedade se retira do Jardim, enquanto a vilã gargalha. Fonte: Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=9tpkbiX911M. A versão em espanhol original do áudio é traduzida nesta cena fielmente em português, conforme o original: Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM.
Foi realizada uma análise e
uma apropriação de mídias audiovisuais produzidas originalmente pela rede de
televisão mexicana Televisa, e pela brasileira Rede Globo.
São mídias distintas,
originalmente produzidas em épocas diferentes, uma pela Televisa em 1998, e
outra em 1985 pela Rede Globo. Ambas foram reprisadas no ano de 2017 pelas
emissoras SBT, que tem parceria com a Televisa para a exibição das tramas
mexicanas, e outra pelo Canal Viva, que pertence ao sistema Globosat de
televisão a cabo, pertencente as mídias Globo.
Em ambas as tramas
observamos a má-apropriação da personalidade de Lucrécia Bórgia, e no decorrer
da pesquisa, foi realizada uma busca pela origem desse tipo de apropriação.
Nas pesquisas
bibliográficas, compreendemos a partir de VIEIRA (2015)[10], que há um
estereótipo na História formado a partir do Iluminismo e da era do Romantismo
na Europa, sobre a Família Bórgia, e também sobre Lucrécia Bórgia.
AZEVEDO, et. Al (2007)[11]
nos faz pensar que o estereótipo da Lucrecia Borgia, mulher má e envenenadora
de maridos, também surge como uma crítica patriarcal a mulher que está à frente
do seu tempo, que na prática não realiza obrigações com a religião ou com os
mandamentos bíblicos.
Paola Bracho e Jô Penteado
são mulheres que desafiam regras religiosas, e são construídas em países aonde
a predominância religiosa na política e na sociedade é grande.
O que faz as personagens
serem taxadas em certos momentos como transgressoras a sociedade nas novelas, é
quando Jô Penteado e Paola Bracho são desconstruídas dos laços religiosos do
casamento, em certos pontos nas novelas, e as paixões rápidas as movimentam nas
tramas.
Assim, voltando ao argumento
já relatado aqui anteriormente, há um estereótipo montado sob um ponto de vista
religioso na elaboração de personagens mulheres nestas novelas, com
personalidades fortes, e políticas, com a intenção de venda para o consumo de
um público específico (HAMBURGUER, 1998)[12],
e esse público, não só o público, consumidor, mas também resultado de como a
produção e os autores específicos dessas novelas, expressam a crítica sobre
essas mulheres, quando as vilanizam, através da comparação com outro
estereótipo de Lucrécia Bórgia. Seria um estereótipo do estereótipo.
As novelas de 1985 e 1998 no
entanto, são reproduções de um estereótipo montado no século XVIII sobre a
Lucrécia Bórgia. E ambas reprisaram em mesmo horário por empresas concorrentes,
que visam a venda de estereótipos femininos em novelas ao olhar de (COSTA,
2000)[13].
Devemos ter cuidados com os estereótipos construídos. Este texto é uma critica as apropriações realizadas por textos que carregam marcas de uma época em que o mundo era diferente do vivenciado nas novelas. O mundo nos anos 1980 e 1990, são diferentes do estereotipado por Victor Hugo e também por Fredinand Gregoróvius, a partir de uma visão machista sobre a personalidade de Lucrécia Bórgia. Há também apropriações feitas por politicos e teóricos que criticam o regime monarquico entre o Renascimento e o Iluminismo. Temos que ficar atentos aos estereótipos de personalidades construídos também em sala de aula, como por exemplo, no ensino de História. A importância da pesquisa Histórica é essencial para construir dados para discutir personalidades em sala de aula, para que não se reproduza dados de memória falseada, e sejam os dados de qual tempo for, precisamos entender também os problemas de época.
Tanto A Usurpadora (1998) e A Gata Comeu (1986) são adaptações, ou remakes de novelas anteriores. A Usurpadora tem inúmeras versões, inclusive uma realizada pela Televisa em 2019. A primeira versão de A Usurpadora é uma radionovela nos anos 1960, editada por Inés Ródena, novelista latina. A Gata Comeu, é baseada em A Barba Azul (1975) e ambas são de autoria de Ivani Ribeiro. Não temos dados se a fala de Paola Bracho (1998) foi repetida anteriormente em outras tramas anteriores como O Lar que Eu Roubei (1981), mas na versão de 2019, não há esta fala. Já no Caso de A Gata Comeu, na versão anterior A Barba Azul (1975) Jô Penteado é chamada de forma jocosa de "Barba Azul", um estereótipo de um personagem de Carles Perrault do Século XVII que tinha fama de desaparecer com suas esposas. Observando hoje como as mulheres são tratadas ou silenciadas por consequencias do machismo, devemos rever como a historia dessas mulheres são retratadas, para não sermos injustos com a luta politica delas.
Bibliografia:
AZEVEDO, Daniela Grillo de;
Et al. Lucrécia Bórgia: sua Imagem no renascimento e na
contemporaneidade. 2007 – Último acesso em: 03 de maio de 2017.
BUSTAMANTE, R. M. da C.;
THEML, N. . História Comparada: olhares plurais. Revista de História Comparada
(UFRJ), v. 1, p. 1-23, 2007.
COSTA, Cristiane. “Desgraça
pouca é bobagem”, “Nada personal” e “El amor tiene cara de Mujer”. In: Eu
compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas.
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)
GRILLANDI,
Massimo. Lucrécia Bórgia. – São Paulo: Círculo do Livro, 1984.
HAMBURGER, Esther. “Diluindo
fronteiras: a televisão e as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS, Fernando &
SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil 4 –
Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
p.439-487.)
BLOCH,
M. Comparaison. REVUE DE SYNTHÈSE HISTORIQUE LXIX (boletim anexo): 31-39, 1930.
HUGO, Victor. Lucrezia Borgia. A cura di Mario Roffi. Ferrara: Liberty house, 1994.
TAPIOCA NETO, Renato. A filha do Papa: a interessante história de Lucrécia Borgia. Rainhas Trágicas. 15 de maio de 2013. Blogue: https://rainhastragicas.com/2013/05/15/lucrecia-borgia/
VAILLANT, Alain; V. A. Mundialização, entre nacionalismo e
mundialização. Olho dgua, São José do Rio Preto, 5(2): 1: 263, p. 79-90,
jul./dez. 2003.
VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand
Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v.
2, p. http://ppghis.c, 2015.
VIVAPLAY.https://globosatplay.globo.com/viva/?gclid=CjwKEAjwjunJBRDzl6iCpoKS4G0SJACJAx-VoUiEwrkAXMtQKdA-MkkmXBrzwBofdJFxTg0OajKM5xoCwafw_wcB.
2017.
Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM. 2017.
[1]
AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al. Lucrécia
Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 – Último acesso em: 03 de maio de 2017.
[2]
COSTA, Cristiane. “Desgraça pouca é bobagem”, “Nada
personal” e “El amor tiene cara de
Mujer”. In: Eu compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas
brasileiras e mexicanas.
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)
[3]
HAMBURGER, Esther. “Diluindo fronteiras: a televisão e
as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS,
Fernando & SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História
da Vida Privada no Brasil 4 – Contrastes da
intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras,
1998. p.439-487.)
[4]
HUGO, Victor. Lucrezia Borgia. A cura di Mario Roffi.
Ferrara: Liberty house, 1994.
[5]
VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand
Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v.
2, p. http://ppghis.c, 2015.
[6]
Apud. VAILLANT,
Alain; V. A. Mundialização, entre nacionalismo e mundialização. Olho dgua,
São José do Rio Preto, 5(2): 1: 263, p. 79-90,
jul./dez. 2003.
[7]
VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand
Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v.
2, p. http://ppghis.c, 2015.
[8]
A Gata Comeu.
Teledramaturgia. < teledramaturgia.com.br>. Foi feito um resumo das
informações do site, organizado pelo jornalista Nilson Xavier, colunista do
Canal Viva.
[9]
Youtube. Apud. La Usurpadora. Televisa. 1998.
< https://www.youtube.com/watch?v=l6RX_ycIgRM > Último acesso em: 03 de maio
de 2017.
[10]
VIEIRA, J. H. R.. Lucrecia Bórgia e Ferdinand
Gregorovius: uma interrelação em linhas. Revista Discente Outras Fronteiras, v.
2, p. http://ppghis.c, 2015.
[11]
AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al. Lucrécia
Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 – Último acesso em: 03 de maio de 2017.
[12]
HAMBURGER, Esther. “Diluindo fronteiras: a televisão e
as novelas do cotidiano”. In: NOVAIS,
Fernando & SCHWARCZ, Lília Moritz (Org.). História
da Vida Privada no Brasil 4 – Contrastes da
intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras,
1998. p.439-487.)
[13]
COSTA, Cristiane. “Desgraça pouca é bobagem”, “Nada
personal” e “El amor tiene cara de
Mujer”. In: Eu compro essa mulher – romance e consumo nas telenovelas
brasileiras e mexicanas.
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. pp.47-102.)



Comentários
Postar um comentário